Tambor de Mina: Tradição, Fé e Resistência Afro-Brasileira

O Tambor de Mina é uma manifestação religiosa afro-brasileira de matriz africana que se desenvolveu no Maranhão e, ao longo do tempo, expandiu-se para estados como Pará, Amazonas, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Essa expansão ocorreu principalmente por meio de pais e mães-de-santo maranhenses e paraenses ou por pessoas iniciadas por eles. Trata-se de um culto de grande riqueza cultural e espiritual, marcado pela fusão de elementos de diferentes tradições africanas, indígenas e europeias.

A origem do Tambor de Mina está ligada aos povos africanos trazidos ao Brasil durante o período da escravidão, especialmente aqueles de nações jeje e nagô. Os primeiros terreiros estruturados surgiram ainda antes da abolição da escravidão, sendo os mais emblemáticos a Casa das Minas, fundada por africanas da etnia jeje, e a Casa de Nagô, dedicada ao culto de Xangô. Essas casas tornaram-se referência para a formação de outros terreiros, que absorveram influências de diversas tradições e passaram a incorporar elementos do catolicismo e de crenças indígenas.

As entidades espirituais cultuadas no Tambor de Mina são divididas em quatro grandes categorias:

  • Voduns e Orixás: São os espíritos divinos de origem africana, representando forças da natureza e princípios espirituais. Entre os voduns mais conhecidos estão Doçu, Averequete, Badé, Sobô, Euá e Abê. Entre os orixás, destacam-se Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã, Nanã (conhecida como Vó Missã) e Iemanjá.

  • Gentis ou Fidalgos: São espíritos de nobres, muitas vezes associados a orixás e santos católicos. Entre os mais cultuados estão Dom João, D. Luís, Rei Sebastião, D. Pedro Angaço, Rainha Dina e Rainha Rosa. Muitos desses espíritos possuem histórias ligadas ao período colonial e à nobreza europeia e africana.

  • Caboclos: São entidades ligadas à força da natureza, especialmente às matas e águas. Alguns caboclos da Mina descendem de espíritos selvagens, como os filhos de Caboclo Velho (o índio Sapequara) e de Surrupira do Gangá. Outros pertencem a linhagens de gentis que entraram na mata, como os filhos de Rei da Turquia e de Légua Buji.

  • Tobossis e Meninas: Essas entidades femininas são mais raras no culto da Mina, e na Mina-Jeje, as tobossis desaparecem com a morte de seus médiuns. Muitas dessas entidades são associadas à realeza e à ancestralidade feminina.

Um dos aspectos que diferenciam o Tambor de Mina de outras religiões afro-brasileiras, como o Candomblé e a Umbanda, é a quase inexistência do culto a Legba (Exu). Enquanto em outras tradições afro-religiosas Exu é uma figura central na comunicação entre os mundos espiritual e material, na Mina ele é pouco homenageado e quase nunca incorpora.



Outro elemento marcante do Tambor de Mina é a importância dos voduns conhecidos como “cambinda”, entre eles Rei da Turquia e Légua Buji. Essas entidades não apenas são consideradas voduns, mas também chefes de grandes famílias de caboclos. Em alguns terreiros, eles são vistos como líderes de nações africanas chamadas "taipa/tapa" e "gangá/fulupa".

Os rituais do Tambor de Mina são conduzidos ao som de tambores sagrados e cânticos que invocam as entidades. As cerimônias são marcadas por danças, oferendas e incorporações espirituais, nas quais os médiuns se tornam instrumentos dos voduns, orixás, fidalgos e caboclos. Esses rituais têm o propósito de fortalecer os laços entre os fiéis e o mundo espiritual, além de promover curas, aconselhamentos e proteção espiritual.

O Tambor de Mina é um exemplo de resistência cultural e espiritual, mantendo vivas tradições africanas e ressignificando-as no contexto brasileiro. Seus terreiros continuam sendo espaços de preservação da memória ancestral, fortalecimento comunitário e expressão da fé. Ao longo dos séculos, essa religião tem resistido ao preconceito e à marginalização, reafirmando sua importância na identidade cultural do Maranhão e do Brasil.

Em um país marcado pela diversidade religiosa, o Tambor de Mina se destaca como uma tradição rica e profunda, capaz de conectar passado e presente por meio da espiritualidade, da música e do culto aos ancestrais. Seu legado continua vivo nos tambores que ressoam em São Luís e em diversas partes do país, ecoando a força e a sabedoria dos povos que ajudaram a moldar a identidade brasileira.


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